sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Abandono

Não me adianta mais dizer que a vida não vale.
Não sustento mais isso de sentir que há uma pontada nos pulmões; a caixa torácica está cheia, de bichos com asas mortas que estão podres, todos pendurados, fétidos. Eu não me lembro dos sonhos, nem do brilho das nuvens ocas e estupidamente felizes, eu quero socar meu peito até que a pele afunde e algum orgão se deforme, eu preciso sentir algo. Meu grito não tem voz, emudecida do que eu sou, refém do meu corpo, do meu ser, da minha vida: estou presa à mim. Não me solto.
Sinto que há algo errado, me olho repetidas vezes no espelho, só pra ter certeza que não derreti. Neste ciclo não me vejo mais, eu sumi. Engoli todas as vírgulas e me sufoquei, ofegante, discorrendo sobre tudo que a vida dói. Me sinto sozinha. A existência está desmoronando. E agora, meu deus, e agora? É assim que acaba? Hoje não. É só dormir. Amanhã você morre. Amanhã você dorme e morre e acorda e morre e vive e morre. E morta vive.

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