sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Abandono

Não me adianta mais dizer que a vida não vale.
Não sustento mais isso de sentir que há uma pontada nos pulmões; a caixa torácica está cheia, de bichos com asas mortas que estão podres, todos pendurados, fétidos. Eu não me lembro dos sonhos, nem do brilho das nuvens ocas e estupidamente felizes, eu quero socar meu peito até que a pele afunde e algum orgão se deforme, eu preciso sentir algo. Meu grito não tem voz, emudecida do que eu sou, refém do meu corpo, do meu ser, da minha vida: estou presa à mim. Não me solto.
Sinto que há algo errado, me olho repetidas vezes no espelho, só pra ter certeza que não derreti. Neste ciclo não me vejo mais, eu sumi. Engoli todas as vírgulas e me sufoquei, ofegante, discorrendo sobre tudo que a vida dói. Me sinto sozinha. A existência está desmoronando. E agora, meu deus, e agora? É assim que acaba? Hoje não. É só dormir. Amanhã você morre. Amanhã você dorme e morre e acorda e morre e vive e morre. E morta vive.

Sobre o correr dos ponteiros

A vida segue

De risadas ou pranto
A vida segue

Aliviando ou doendo cada vez mais
A vida segue

Se for só ou se sorrir junto
Se o coração bate forte
E explode o peito

A vida segue

Ora, se chove
Se é noite
Se é dia
Se a folha nasce ou se a flor morre

A vida segue

Com ou sem você

A vida segue

Se eu lembro dos teus olhos
Se me culpo
Ou se te esqueço

A vida segue

Se eu estiver ou não aqui
Ou você
Ou qualquer um

Se a pétala for rude ou delicada
A vida segue

Se o senhor diz
E a renda fina e frágil
Se desfaz e desmancha
Em mãos rudes

A vida segue

Veja só, o pássaro voa
E a vida segue

A borboleta, presa em sua transformação, rejeita sua própria forma

E voa

Então
Num dia de chuva, ela morre

E todos os sóis
E toda o bater de asas
E toda a beleza
Morre

Morre

E ninguém sente
(e o mundo todo chora)

E a vida segue...

Essa noite eu só queria
Meia dúzia de palavras fáceis
E riso frouxo
Clichê

Me perder
No emaranhado das coisinhas
De cada olhos e de cada ser
De cada cor

Eu queria sorrir grande
Sem perceber
Que a vida se perde
Perdendo tudo, tudo

Olha, menina
Você parece uma fogueira
Ardendo
Queimando
Acesa
Consumindo tudo

Então hoje
Eu queria aqui
Dentro
Mas você não vem
Você não chega
E eu adormeço
E acordo
E o dia passa
E mais outro
E mais um

Eu perdi a conta