terça-feira, 15 de novembro de 2016

Punição.

Eu queria dizer um monte de coisinhas e te contar o dia inteirinho, tudo isso no diminutivo, sobre a vida e a chuva, que caem, pesadas, espancando o vidro da janela e da alma.
Acontece que tudo já se desfez e continua desmanchando e desfazendo e não tem sobra nem folga e tudo fala tão agudo, feito unha arranhando a parede lisa e branca. Tão irritantemente branca e limpa, que me faz querer destroçar aos dentes.
Se eu batesse minha cabeça bem forte contra o portão de ferro e gritasse entre-dentes que eu não aguento mais isso, seria menos expressivo que esse meu silêncio apático, porque sinto que dói, sem sentir, dói.
Então se eu pudesse te contar do mundo e de dentro. E do estômago e das sujeiras todas. Se eu pudesse externar e te mostrar com o meu corpo, que tudo está dentro de mim; se eu pudesse fazer você me machucar, pra que eu possa me sentir bem; se eu pudesse ser mais honesta e escancarar as costelas e te mostrar o sangue por debaixo das minhas unhas e te arrancasse pedaços nervosos, com toda a minha fome de sentir - de sentir algo enorme que engula minha vida e o meu corpo.
Eu sei que entrei sua existência, com todos os lenços no bolso esquerdo e que devorei tudo que você exalou, mas agora olha, preciso ser humilhada, porque eu mereço isso. E isso vai me satisfazer e se não satisfizer, não haverá mais forças pra que eu abra os olhos, então hoje, eu poderia entrar na sua festa com diversos lenços de nós direitos e sorrir, abaixando a cabeça, e você poderia me machucar, tanto quanto você alimenta que eu te machuco. E estaria tudo bem.
Eu queria abrir o guarda-chuva e então vê-lo voar, sentindo a água cortar minha pele. Todas essas coisinhas, da vida inflamada, pulsante e morta, meu deus tão morta. Todas essas coisas são as que eu não digo. Porque os impulsos maléficos que me satisfazem não são saudáveis nem sãos nem lúcidos. Contenho tudo. Nada disso faz o menor sentido.

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