sábado, 27 de agosto de 2016

Irreparável

Olha, Carla
A xícara quebrou
Mas sua filha não morreu
(Foi a minha vida aflita na sala de espera)

O seu peito pode carregar
A porcelana falsa desse rosto pálido
O verão passou
A noite caiu pesada 
A música, de fato, acabou

Olha 

Eu sei que você sabe
A vida segue
E arrasta a gente

Me diz uma coisa
Como você consegue sorrir?
Continuo me perguntando
Qual é o tamanho da coragem dessa destruição
Que tanto causou o teu sorriso
 
A vida é tão dura
A gente deita e chora
Reza pra deus em quem não acredita
E às vezes pede
Pro amanhã não vir

Mas ele vem
E que bom que veio
(Pra mim ele brada a vida)

Você não dança mais
E o amor existe
Fora da doença que são os vidros da sua casa

Algumas coisas podem ser recuperadas
Nunca reparadas

Acabam pra nunca mais

E por mais que alguém finja
Um pedaço de vidro numa fita bonita
Não faz as tardes de café serem mais doces
 
É preciso assumir a verdade, sem floreios:
Essa xícara quebrou.

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