terça-feira, 5 de abril de 2016

Tentativas.

Tudo em mim é temporada.
Num ciclo cansativo de infinitas mudanças, me encontro desde sempre, mas nunca me achei, em meio a tudo que se pode e tudo que é e não é e que muda e muda e muda, até que não se nota diferença alguma.
Eu passo na recepção e a atendente sorri, vê meu nome no cartão, finge que me conhece, me entrega as chaves.
Entro no elevador, ele sobe, cheguei. Abro a porta, cama feita, cortinas impecáveis, as malas nas mãos, nunca se desfazem, porque nenhum desses lugares é minha casa.
Os travesseiros fofos e as tolhas que deixo no chão, pra quando voltar encontrar outras alvas em seus postos. A comida sempre na hora, quente, me sento à mesa, sozinha, não sinto gosto algum: é maravilhoso, mas não é meu.
Então eu, pego minha bagagem, cada vez mais pesada e estranhamente vazia, vou embora: pra próxima estadia.
Eu rodei o mundo todo e não tenho lar. Estive em todos os lugares, sempre estrangeira, inclusive em mim.
Tudo tão diferente, exatamente igual.
Não tenho casa, não tenho casa, não tenho casa.
Se chove, estou só, se há sol, nem a praia faz sentido, vento nenhum faz companhia.
Quero o quentinho da cama, o porta retrato, o cheiro de bolo no forno de manhã.
Quero morada, quero sorriso e pintura na parede.
Eu não quero mais mudar porque nada faz sentido, não quero recomeçar pra fingir a sensação de movimento.
Quero amar o terreno, fazer planos em cima dele, quero construir, quero fazer reforma e pôr o lixo pra fora.
Estar no destino é lindo e harmonioso, é sonho: mas nada disso é meu.
Quero pertencimento.
Plantar uma árvore e, de alguma forma, morar ali pra sempre.
Quero me render ao que há de mais íntimo, abrir a geladeira e fazer a receita da avó.
Aventura é ser feliz.
Continuo mudando, esperando o dia que "ficar" seja vida. Mudo na esperança de não mais mudar.
A vontade de fugir já é de casa.

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