terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Agonia constante.

Eu nunca antes tive medo do fim.
O final das coisas sempre me pareceu uma benção. Sonhei dias e noites com o dia e hora em que eu seria abençoada.
Eu nunca antes tive tanto medo.
Cada vez que me despeço, cada vez que durmo, cada vez que penso, sinto aquela fisgada bem no centro da ordem de tudo. Aquilo contorce e dói.
E sinto medo.
Pela primeira vez na vida, o encerramento das coisas me assombra. Quero continuar.
Em algum momento me perdi nisso tudo, dentro de mim alguma coisa atendeu a inclinação para o natural. A morte é inevitável.
O tempo vai levar tudo isso.
Vai acabar.
Gritos dementes de dor, silenciosos, torturando meu presente.
Algumas lágrimas escorrem, a luz acende.
Um abraço quentinho.

O pra sempre se fazendo tão breve, tão breve e delicado, passageiro. Eterno - agora - acabou.

Pra sempre será, porque já é (sempre foi?).
E o que é, é e não muda (então sempre foi?).
E se mudou, então já foi, então nunca foi, porque não é e o que não é, não é.

Nos perdemos no tempo, nos atos e lembranças, no próprio momento, na sensação que fica e na que escapa.

O teu calor e o tempo parado, voando, correndo contra nós, contando a brevidade do que, na verdade, sempre será e é e sempre foi, apesar de nunca antes ter sido.
Eu não me entendo mais, como sempre.
Eu nunca antes tive medo.
Eu não quero perder.
Eu não quero que acabe.
Estou perdendo todo o agora, amaldiçoando o fim, que virá, pesado, pesado.

Encerrar ciclos é necessário. Dez mil toneladas em minhas costas e você, leve, diante de mim.
Eu antes não tinha nada a perder. Agora sinto que ganhei.
Sinto que escapa das minhas mãos.
Eu preciso parar.
Não consigo, simplesmente não consigo.
Vou continuar girando, incessante, como um cão querendo morder o próprio rabo, sem nunca conseguir, sabendo que não é possível, buscando e buscando o que já encontrei. Então já acabou, mas parar também será o fim.
Eu não quero perder a ridícula crença de que a tentativa é realmente tudo. Fui desgraçada pelos livros que li, pelas teorias que aplaudi, por tudo que eu sinto e sei e não sei.
Sou desgraçada por mim, pelo meu peso, pelo meu cansaço e pela plena consciência de que não vai chegar nunca.
Pela esperança de que não parar pode me redimir, me mantenho, mas não acredito.

Mas agora eu tenho medo.
Eu não quero o fim, mas já é tarde.
Fica comiga agora.
Silêncio.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Caminho.

Em qual esquina
Minha cabeça
encontrou teu ombro?

Em qual cruzamento
Você acenou pra mim?

Eu vi tuas cores
E segui teu faro

Te persegui em todos os becos
Eu costumava estar em ruas sem saída

Mas você me levou ao campo
À praia

Àquele lugar
Onde as pessoas sorriem

Então eu sorri
Com meus dentes amarelos
Enferrujados

E quando você

Sorriu de volta

Todos os faróis explodiram
E eu vi todas as estrelas
A cidade toda se iluminou
Houve riso, beijo
Houve chegada e abraço
E festa
O mundo todo disse "sim"

Você acelerou
Me arremessou
Eu nem pude ver

Você matou
Tudo aquilo

A morte
Rendeu flores
E havia um lindo girassol
E terra boa e saudável
E raíz

A estrada era verde
Como seus olhos.

É estranho ser alguém.

Ser é engraçado, esquisito, incômodo.
Porque ser é essencial, certo?
Então o ser é imutável?

Sou o que sou.
Sou o que sou?
Enquanto sou.

Sou até deixar de ser.
Então sou?

O que sou?

Sou o que sou.

Continuo sendo
O que não pude evitar

Ser

Irremediavelmente
Ser

Me sou
Sou outra
Estrangeira
Perdida
Fingindo que conhece a estrada
Me perdendo em cada esquina
Chamando cada vala de casa

Tropeçando em meus próprios pés
Sendo tudo que posso
E nada
Não sou nada

Nunca fui alguém
Agora sou

Estou deitada
Na almofada da sala da rua
Sentindo o cheiro de bolo no forno

Sentindo o dia caindo devagarzinho
Sob minha cabeça
O anúncio do fim
Do começo de cada coisa

Sorrindo
E acabando
E feliz feliz feliz

Saltitante
Eufórica
Caí
De repente
Do firmamente
O fundo do abismo
É perto

Mas tudo bem.

Amém.

Mais um ano.
Ano novo, vida nova.

De fato, ano novo, vida nova.
Estou feliz. Vejam vocês, que alegria: me sinto bem e feliz.

Ainda tenho noites ruins, sim, mas tudo bem, estão amenizando.
Tenho pra onde voltar.
Meu coração está quentinho.
Essa postagem não vai ser triste.

Estou escrevendo e não estou triste.

Me sinto bem, calma e levinha.

Está tudo bem.
Daqui pra frente, vou daqui pra frente.

Feliz ano novo.