sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Abandono

Não me adianta mais dizer que a vida não vale.
Não sustento mais isso de sentir que há uma pontada nos pulmões; a caixa torácica está cheia, de bichos com asas mortas que estão podres, todos pendurados, fétidos. Eu não me lembro dos sonhos, nem do brilho das nuvens ocas e estupidamente felizes, eu quero socar meu peito até que a pele afunde e algum orgão se deforme, eu preciso sentir algo. Meu grito não tem voz, emudecida do que eu sou, refém do meu corpo, do meu ser, da minha vida: estou presa à mim. Não me solto.
Sinto que há algo errado, me olho repetidas vezes no espelho, só pra ter certeza que não derreti. Neste ciclo não me vejo mais, eu sumi. Engoli todas as vírgulas e me sufoquei, ofegante, discorrendo sobre tudo que a vida dói. Me sinto sozinha. A existência está desmoronando. E agora, meu deus, e agora? É assim que acaba? Hoje não. É só dormir. Amanhã você morre. Amanhã você dorme e morre e acorda e morre e vive e morre. E morta vive.

Sobre o correr dos ponteiros

A vida segue

De risadas ou pranto
A vida segue

Aliviando ou doendo cada vez mais
A vida segue

Se for só ou se sorrir junto
Se o coração bate forte
E explode o peito

A vida segue

Ora, se chove
Se é noite
Se é dia
Se a folha nasce ou se a flor morre

A vida segue

Com ou sem você

A vida segue

Se eu lembro dos teus olhos
Se me culpo
Ou se te esqueço

A vida segue

Se eu estiver ou não aqui
Ou você
Ou qualquer um

Se a pétala for rude ou delicada
A vida segue

Se o senhor diz
E a renda fina e frágil
Se desfaz e desmancha
Em mãos rudes

A vida segue

Veja só, o pássaro voa
E a vida segue

A borboleta, presa em sua transformação, rejeita sua própria forma

E voa

Então
Num dia de chuva, ela morre

E todos os sóis
E toda o bater de asas
E toda a beleza
Morre

Morre

E ninguém sente
(e o mundo todo chora)

E a vida segue...

Essa noite eu só queria
Meia dúzia de palavras fáceis
E riso frouxo
Clichê

Me perder
No emaranhado das coisinhas
De cada olhos e de cada ser
De cada cor

Eu queria sorrir grande
Sem perceber
Que a vida se perde
Perdendo tudo, tudo

Olha, menina
Você parece uma fogueira
Ardendo
Queimando
Acesa
Consumindo tudo

Então hoje
Eu queria aqui
Dentro
Mas você não vem
Você não chega
E eu adormeço
E acordo
E o dia passa
E mais outro
E mais um

Eu perdi a conta

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Punição.

Eu queria dizer um monte de coisinhas e te contar o dia inteirinho, tudo isso no diminutivo, sobre a vida e a chuva, que caem, pesadas, espancando o vidro da janela e da alma.
Acontece que tudo já se desfez e continua desmanchando e desfazendo e não tem sobra nem folga e tudo fala tão agudo, feito unha arranhando a parede lisa e branca. Tão irritantemente branca e limpa, que me faz querer destroçar aos dentes.
Se eu batesse minha cabeça bem forte contra o portão de ferro e gritasse entre-dentes que eu não aguento mais isso, seria menos expressivo que esse meu silêncio apático, porque sinto que dói, sem sentir, dói.
Então se eu pudesse te contar do mundo e de dentro. E do estômago e das sujeiras todas. Se eu pudesse externar e te mostrar com o meu corpo, que tudo está dentro de mim; se eu pudesse fazer você me machucar, pra que eu possa me sentir bem; se eu pudesse ser mais honesta e escancarar as costelas e te mostrar o sangue por debaixo das minhas unhas e te arrancasse pedaços nervosos, com toda a minha fome de sentir - de sentir algo enorme que engula minha vida e o meu corpo.
Eu sei que entrei sua existência, com todos os lenços no bolso esquerdo e que devorei tudo que você exalou, mas agora olha, preciso ser humilhada, porque eu mereço isso. E isso vai me satisfazer e se não satisfizer, não haverá mais forças pra que eu abra os olhos, então hoje, eu poderia entrar na sua festa com diversos lenços de nós direitos e sorrir, abaixando a cabeça, e você poderia me machucar, tanto quanto você alimenta que eu te machuco. E estaria tudo bem.
Eu queria abrir o guarda-chuva e então vê-lo voar, sentindo a água cortar minha pele. Todas essas coisinhas, da vida inflamada, pulsante e morta, meu deus tão morta. Todas essas coisas são as que eu não digo. Porque os impulsos maléficos que me satisfazem não são saudáveis nem sãos nem lúcidos. Contenho tudo. Nada disso faz o menor sentido.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O choro no banheiro

Se eu pudesse te contar
Que fora disso
Tudo
Tem vida
E cores
E riso

Se eu pudesse
Te contaria
Todas essas histórias
Erradas
Com finais doídos
E te diria
"Será feliz"
Mas eu não posso
Então digo

Dureza sobre dureza
E machucado em cima de ferida
Eu queria te dar um abraço
Mas gente forte
Não fraqueja

Besteira nossa tudo isso
Besteira nossa
Essa vida

Esse cansaço
Esse tentar
Isso tudo que não finda

Besteira nossa
Continuar

Sofrer não é pecado

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Eu quero morrer

Se meus passos doessem
Um pouquinho menos

Um pouquinho menos
Tudo doeria

Se as dores todas fossem
Dessas que um comprimido resolve

Toda a atitude seria questão de tomar

Ai meu deus, mas não é, nunca é

Se a solidão fosse
Questão de aceitar companhia

Eu aceitaria

Solidão ou companhia

Soa como coisa grande vazia
Que dói mais ter sem miolo
Do que apenas não existir

Se fosse só estar
E não parecesse um espinho dentro
Se fosse você só olhar
E sentir invadir o peito

Ai meu deus, mas não é
Nunca é

Vou dizer de novo: só me resta findar.

sábado, 27 de agosto de 2016

Irreparável

Olha, dona Carla
A xícara quebrou
O verão passou
A noite caiu
E a música acabou

Olha, dona Carla
Eu sei que você sabe
A vida segue
E arrasta a gente
Dona Carla,
Me diz uma coisa
Como você consegue sorrir?

A vida é tão dura
A gente deita e chora
Reza e às vezes pede
Pro amanhã não vir

Mas ele vem
Olha, dona Carla
Você ainda dança
E o amor existe
Mesmo com a xícara quebrada

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Nunca.

Cansei das palavras cruzadas e de procurar o significado, cansei das suas entrelinhas, elas não me sorriem mais (não tem tanta graça depois que você sangra até morrer); eu queria um travesseiro e sentir a pele quente; eu cansei dos espelhos e dos meus reflexos se quebrando pra eu poder te ver, na brechinha da janela, eu cansei, quero abrir as cortinas, quero descascar a parede, porque o bonito não me interessa, quero saber qual é a pintura velha e o que tanto se esconde porque é ultrapassado, porque aquela coisa bem ali sob o que se mostra não cabe, quero ver e arranhar e guardar aquilo nos meus olhos, mesmo que se cubra novamente; eu quero cicatriz porque tem história, eu quero ver, eu quero pele, eu quero verdade, eu cansei, não quero mais, não quero mais, eu quero tanto, agora ou nunca.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Hoje não.

Não vou chorar mais
Não vou me machucar

Hoje eu não vou

Pensar em ti

Só me faz doer
Essa coisa dentro

É você

É você que não sai

De tudo que eu sou
Não vejo nada inteiro

Desde que você

Se foi

Eu sinto muito
E sinto forte

Saudade

Já não cabe

Eu não vou te procurar
Em todos os cantos

Te vejo

Não

Te quero
Tanto

Faz

Tanto tempo

Se foi
Hoje eu não vou

Embora

Você sempre vai

Ser
O meu erro.

Ninguém se importa, nem você.

Mas "deixa eu te dizer antes que o ônibus parta, que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado"...

Você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado. Dói saber que disse não, quando o não era nosso fim. Dói saber que se escondeu quando poderia segurar minha mão.

Dói saber que não faz questão, sentir que não sente falta, que não sentiu minha falta, porque eu quase morri de tanto que me faltou. Eu juro que quase não consegui levar. E você?

Você age como se nada tivesse acontecido.

Vai ver nunca aconteceu.
Me chateia tanto. Dentro de mim, me contorço. Reconhecimento... Sabe? Decência.

Te falta algo decisivo: lutar.
Quem sou eu pra dizer isso? Sempre me perguntei.

Mas eu permaneci.
E você foi embora. E continua indo embora.

(E continua aqui).

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Bloqueio.

Olhos fechados
Finjo
Não estou dormindo

Não adianta fingir
Os passos lentos

Sinto a aproximação

Sedenta
Mais uma noite
Aquela maldita cena

Os besouros na tela
Volume alto

Pra abafar o meu medo

Ele me encosta
Eu não posso me defender
Meu nariz sangra

A doutora me traz de volta
Estou tremendo

- Me diz,
Onde ainda dói?

Sinto o rasgo no meio

- Não sei, não me lembro.

domingo, 1 de maio de 2016

Domingo, dia que inicia qualquer coisa, enquanto eu continuo acabando.
O que é o fim? Acho que já passei dele e esqueceram de me recolher.
Estou cansada. Cansada da vida toda desde a vida toda.
Não é culpa tua, nem minha, nem de ninguém.
Não há culpados
Nem inocentes

Eu não me deixo em paz
eu não me sinto bem

Eu quero ir embora
Pra onde?

Não tenho pra onde ir
Não tenho onde ficar

O fim já foi, eu sou morta-viva
Não sei nem mais falar
Nem mais brigar

É o desgaste de todo dia, como uma porta rangendo por dentro, como os dentes se raspando até que todos os ossos sintam dor, mas nem a dor faz sentido.

Nada faz sentido.
Eu não sei como findar.

sábado, 16 de abril de 2016

Palavras pra ninguém.

A noite ventava, agradável, enquanto a conversa fluía entre risos e bebidas, numa alegria descabida, da qual eu não compartilhava nem compreendia. Estava cansada, fumava o cigarro que nem meu era, me perdi no céu azul escuro, olhei fixo pra uma coisa que achei que era um balão. Queria estar naquele balão, pensei. Mas não era um balão, era um estrela. Queria estar naquela estrela. Queria estar num lugar bem longe porque a alegria não me cabe. Tenho a essência do fim bem dentro, como naquelas coisas que estão prestes a morrer, sinto um fio de qualquer coisa fraco e falhando e sumindo e sumindo.
Eu queria dizer que estou triste, mas não cabe, porque tenho me sentido assim o tempo todo. Estou beirando ao descontrole. Preciso me acalmar. Isso não pode explodir, não pode, não de novo e não agora. Eu não suportaria, mas também não suporto. Meus pés estão com cãibras, faz horas. Falar de dor também não é novidade, me calo. Vou para o meu quarto, que na verdade não é meu. Está escuro. Tomo o sexto remédio da noite, ainda dói e não tenho sono. Maldição. Ouço som de quem dorme, estou sozinha. Eu só quero descansar. Estou cansada de chorar também, mas eu choro. Está tudo errado. Tudo errado. Quero ficar quietinha pra sempre. Penso em me matar. Penso tantas vezes nisso que tenho vergonha, tenho vergonha até de admitir pra mim mesma. Alguém me traz um comprimido, o sétimo, nem pergunto o que é, prefiro morrer dormindo do que incomodar mais. Silêncio. Farei silêncio. É o que resta, porque nada resolve. Estou cansada e pesada. Não é culpa de ninguém. Eu só não posso fazer barulho. Silêncio, Rebecca, mantenha o silêncio. Meus dedos sangram, mas tudo bem. Qualquer coisa que alivie um pouco isso. Mastigue sua dor sozinha, digo a mim mesma. Mastigue sua dor.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A madrugada é fria no chão onde eu choro.
Não consigo consertar isso que sou, não consigo parar de doer, eu entendo todas essas coisas que são jogadas na minha cara e elas também me machucam, eu quero proteção, eu não aguento mais, quero desistir, quero arrego. Por que isso não para de doer? Não para nunca. Eu preciso de alívio, eu preciso respirar, meu corpo precisa parar de doer, preciso dormir e ter uma vida saudável, por que eu não consigo? Meu deus, por que eu não consigo não sangrar por todas as coisas banais? Eu sangro e vazia, morro.
Eu não aguento mais, de novo de novo e de novo, eu não aguento mais.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Regressiva.

Tenho em mim todas as mortes do mundo.

Eu não posso fugir disso que me fura por dentro e arrebenta meu corpo.

Então cada vez que eu preciso me apoiar nas paredes
porque dói,
cada vez que eu ajoelho e choro
porque dói,

cada vez que tudo grita tanto que eu me perco, cada vez que a cabeça dói e a vida escorre, cada vez que eu me sinto tão em carne viva, desejo o fim.

Porque devem haver todos os outros do mundo, mas quando tudo é tão delicado e pequeno e explode assim, tenho em mim - apenas em mim - a maldição de me carregar e é tão, tão pesado.
Tão pesado que me soterra.

A dor é minha, minha, tão minha. A dor está em mim, bem dentro e por todo o corpo, irradia, devagar, devagar, calmamente, vagarosa, mas tão violenta, com a lentidão do que é letal.
Eu morri todos esses dias e continuo morrendo e morrendo.

Os sintomas avançam e o medo aumenta: não há o que se possa fazer.
Sinto que falta pouco e eu não estou pronta (e isso dói).

Eu não quero ir (e isso também dói).
Choro porque não aguento mais.

Ninguém pode me ajudar.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Tentativas.

Tudo em mim é temporada.
Num ciclo cansativo de infinitas mudanças, me encontro desde sempre, mas nunca me achei, em meio a tudo que se pode e tudo que é e não é e que muda e muda e muda, até que não se nota diferença alguma.
Eu passo na recepção e a atendente sorri, vê meu nome no cartão, finge que me conhece, me entrega as chaves.
Entro no elevador, ele sobe, cheguei. Abro a porta, cama feita, cortinas impecáveis, as malas nas mãos, nunca se desfazem, porque nenhum desses lugares é minha casa.
Os travesseiros fofos e as tolhas que deixo no chão, pra quando voltar encontrar outras alvas em seus postos. A comida sempre na hora, quente, me sento à mesa, sozinha, não sinto gosto algum: é maravilhoso, mas não é meu.
Então eu, pego minha bagagem, cada vez mais pesada e estranhamente vazia, vou embora: pra próxima estadia.
Eu rodei o mundo todo e não tenho lar. Estive em todos os lugares, sempre estrangeira, inclusive em mim.
Tudo tão diferente, exatamente igual.
Não tenho casa, não tenho casa, não tenho casa.
Se chove, estou só, se há sol, nem a praia faz sentido, vento nenhum faz companhia.
Quero o quentinho da cama, o porta retrato, o cheiro de bolo no forno de manhã.
Quero morada, quero sorriso e pintura na parede.
Eu não quero mais mudar porque nada faz sentido, não quero recomeçar pra fingir a sensação de movimento.
Quero amar o terreno, fazer planos em cima dele, quero construir, quero fazer reforma e pôr o lixo pra fora.
Estar no destino é lindo e harmonioso, é sonho: mas nada disso é meu.
Quero pertencimento.
Plantar uma árvore e, de alguma forma, morar ali pra sempre.
Quero me render ao que há de mais íntimo, abrir a geladeira e fazer a receita da avó.
Aventura é ser feliz.
Continuo mudando, esperando o dia que "ficar" seja vida. Mudo na esperança de não mais mudar.
A vontade de fugir já é de casa.

terça-feira, 22 de março de 2016

Ressentimento.

Deixei meus versos no pé da sua porta.
Idiota que sou, quanto menos motivos eu tenho pra lembrar, mais penso. Por que diabos eu faço isso comigo? Eu não sei.
Tenho medo de fazer perguntas a mim mesma, tenho medo de me desvirar do avesso, tenho medo de no fim olhar pra mim e concluir que eu sempre soube, eu sei.
Deixei minhas palavras no pé da sua porta. Todas elas sangraram de mim, gota a gota, eu fiquei vazia e fraca, mas olha só. Dizem que a gente acredita no que quer, acreditei em você, eu te queria tanto. Deixei minha esperança no pé da sua porta.
Deixei minha vida no pé da tua porta, escorri minha existência, assisti meus tesouros me escaparem entre os dedos. Deixei meu sorriso no pé da tua porta. Te cantei todas as canções de calma, me fiz pra você o conforto que eu não tinha. Te dei minhas mãos, meus olhos, meu sono, minha voz, minha paz. Eu te dei tudo, dei tudo de mim.
Eu deixei tudo diante da tua porta.
Mas olha, olha bem, acha que está tudo igual? Diante de toda aquela ruína que eu te deixei deixar, me reconstruí, com aquelas mãos de salsa e pimenta dedo de moça, que me seguraram bem firme num abraço quente, quando eu mais precisei.

Você nunca abriu a porta.

domingo, 20 de março de 2016

Camomila.

Noite de domingo
Eu trouxe limonada
Ela pinta, eu escrevo
Os cigarros acabaram
não temos dinheiro
os gatos dormem
e a música toca

Eu olho pra ela, ela sorri

Repeat
É Cícero quem diz
só um pouco de paz
pro dia passar bem

Nosso quarto
os lençóis e fronhas vermelhas
A retina dela
a minha paz.

sábado, 19 de março de 2016

Algo em mim
É antigo
Mas nunca ultrapassado

Algo em mim
É o mesmo
E não me abandona

Desde que me fiz
(Talvez antes)
Me acompanha

Como uma faca
Atravessada nas entranhas

Que a gente não sabe se fica
e vive com o incômodo
(e vive o incômodo)

Com o ferimento exposto
Limpando o sangue que vaza
Constantemente

Enfraquecendo a vida
Como se ela, de fato,
não existisse

Por escorrer

Tão fraquinha

Gota a gota

Rumo ao chão

[...]

De tempos em tempos
Eu penso em arrancar a dor
E sinto que vou morrer

Tentando

Tentando tirá-la de mim
Sinto que vou morrer

A dor está pregada em minha carne

Sinto que vou morrer
Porque não tenho força

Eu não tenho forças

Nem pra me curar
Nem pra viver doente

A dor não é minha
Ela vive em mim
Sinto que sou dela
Ela não me deixa viver

Eu quero desistir

(mas também)

Continuar
Tem sido
A minha maior desistência.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Pequenez.

Eu queria não ser tão boba.
Por todos os santos e deuses, eu apenas precisava deixar de ser tão boboca. Costumo lidar bem com as coisas de fora, mas as de dentro, ah, as de dentro não me dão folga e eu me sinto tão pequena e ofendida e parece que tudo dói. Me sinto criança boba que se joga no chão e chora e não cansa e não aprende que aquilo não resolve. Me sinto ingênua. Sou aquela que, sabendo que não ia dar certo, foi lá e fez.
Quando eu vou parar? Eu vou parar?

Oh universo, ajude-me a conter o meu eu que me fere.

Mas eu nem acredito em prece. E agora, corro pra onde? Pra lugar nenhum.
De fato, quem não atinge a linha de chegada, parece que nunca correu.

Mas eu corro, deus, como eu corro, com a meta de encontrar alguma meta que me faça parar, alguma linha que, quando ultrapassada, me dê descanso.

Mas não chega, não chega e não chega.

Corro de mim e caio direto em meus  braços.
Passo por infinitas curvas e vales.

E eu também já nem sei se ainda corro.
Preciso parar de ser tão boba e crescer dentro de mim.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Agonia constante.

Eu nunca antes tive medo do fim.
O final das coisas sempre me pareceu uma benção. Sonhei dias e noites com o dia e hora em que eu seria abençoada.
Eu nunca antes tive tanto medo.
Cada vez que me despeço, cada vez que durmo, cada vez que penso, sinto aquela fisgada bem no centro da ordem de tudo. Aquilo contorce e dói.
E sinto medo.
Pela primeira vez na vida, o encerramento das coisas me assombra. Quero continuar.
Em algum momento me perdi nisso tudo, dentro de mim alguma coisa atendeu a inclinação para o natural. A morte é inevitável.
O tempo vai levar tudo isso.
Vai acabar.
Gritos dementes de dor, silenciosos, torturando meu presente.
Algumas lágrimas escorrem, a luz acende.
Um abraço quentinho.

O pra sempre se fazendo tão breve, tão breve e delicado, passageiro. Eterno - agora - acabou.

Pra sempre será, porque já é (sempre foi?).
E o que é, é e não muda (então sempre foi?).
E se mudou, então já foi, então nunca foi, porque não é e o que não é, não é.

Nos perdemos no tempo, nos atos e lembranças, no próprio momento, na sensação que fica e na que escapa.

O teu calor e o tempo parado, voando, correndo contra nós, contando a brevidade do que, na verdade, sempre será e é e sempre foi, apesar de nunca antes ter sido.
Eu não me entendo mais, como sempre.
Eu nunca antes tive medo.
Eu não quero perder.
Eu não quero que acabe.
Estou perdendo todo o agora, amaldiçoando o fim, que virá, pesado, pesado.

Encerrar ciclos é necessário. Dez mil toneladas em minhas costas e você, leve, diante de mim.
Eu antes não tinha nada a perder. Agora sinto que ganhei.
Sinto que escapa das minhas mãos.
Eu preciso parar.
Não consigo, simplesmente não consigo.
Vou continuar girando, incessante, como um cão querendo morder o próprio rabo, sem nunca conseguir, sabendo que não é possível, buscando e buscando o que já encontrei. Então já acabou, mas parar também será o fim.
Eu não quero perder a ridícula crença de que a tentativa é realmente tudo. Fui desgraçada pelos livros que li, pelas teorias que aplaudi, por tudo que eu sinto e sei e não sei.
Sou desgraçada por mim, pelo meu peso, pelo meu cansaço e pela plena consciência de que não vai chegar nunca.
Pela esperança de que não parar pode me redimir, me mantenho, mas não acredito.

Mas agora eu tenho medo.
Eu não quero o fim, mas já é tarde.
Fica comiga agora.
Silêncio.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Caminho.

Em qual esquina
Minha cabeça
encontrou teu ombro?

Em qual cruzamento
Você acenou pra mim?

Eu vi tuas cores
E segui teu faro

Te persegui em todos os becos
Eu costumava estar em ruas sem saída

Mas você me levou ao campo
À praia

Àquele lugar
Onde as pessoas sorriem

Então eu sorri
Com meus dentes amarelos
Enferrujados

E quando você

Sorriu de volta

Todos os faróis explodiram
E eu vi todas as estrelas
A cidade toda se iluminou
Houve riso, beijo
Houve chegada e abraço
E festa
O mundo todo disse "sim"

Você acelerou
Me arremessou
Eu nem pude ver

Você matou
Tudo aquilo

A morte
Rendeu flores
E havia um lindo girassol
E terra boa e saudável
E raíz

A estrada era verde
Como seus olhos.

É estranho ser alguém.

Ser é engraçado, esquisito, incômodo.
Porque ser é essencial, certo?
Então o ser é imutável?

Sou o que sou.
Sou o que sou?
Enquanto sou.

Sou até deixar de ser.
Então sou?

O que sou?

Sou o que sou.

Continuo sendo
O que não pude evitar

Ser

Irremediavelmente
Ser

Me sou
Sou outra
Estrangeira
Perdida
Fingindo que conhece a estrada
Me perdendo em cada esquina
Chamando cada vala de casa

Tropeçando em meus próprios pés
Sendo tudo que posso
E nada
Não sou nada

Nunca fui alguém
Agora sou

Estou deitada
Na almofada da sala da rua
Sentindo o cheiro de bolo no forno

Sentindo o dia caindo devagarzinho
Sob minha cabeça
O anúncio do fim
Do começo de cada coisa

Sorrindo
E acabando
E feliz feliz feliz

Saltitante
Eufórica
Caí
De repente
Do firmamente
O fundo do abismo
É perto

Mas tudo bem.

Amém.

Mais um ano.
Ano novo, vida nova.

De fato, ano novo, vida nova.
Estou feliz. Vejam vocês, que alegria: me sinto bem e feliz.

Ainda tenho noites ruins, sim, mas tudo bem, estão amenizando.
Tenho pra onde voltar.
Meu coração está quentinho.
Essa postagem não vai ser triste.

Estou escrevendo e não estou triste.

Me sinto bem, calma e levinha.

Está tudo bem.
Daqui pra frente, vou daqui pra frente.

Feliz ano novo.