quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Inundações.

Estou tentando sobreviver. Penso tanto tanto em morrer que às vezes me pergunto se não seria mesmo melhor. Acho que seria. Sinto que seria. Esses dias têm chovido, chovido muito e eu odeio me molhar. Quando eu era criança lembro de adorar sentir as gotas, o frio, era tão vivo, agora, me sinto doente e menor que antes. Eu não uso guarda-chuva porque não sei ter abrigo, eu nunca tive, não consigo me sentir bem, mas acontece que as gotas estão geladas demais e minha pele dói.
Ouço música, leio, faço mantras e arranho a pele, tento me acalmar, tento desfocar e escrevo aqui, escrevo pra não te ligar e dizer que eu quero morrer, pra não te pedir um abraço, te pedir desculpa por não conseguir, pra não te pesar, como sempre faço. Me recorre "preciso de ajuda, não sei quanto mais eu seguro", mas não consigo fazer nada. Nada. Você se parece com aquele guarda-chuva amarelo, que eu sempre quis que me protegesse, que fosse pra chuva comigo, aquele que eu sempre quis, que nunca foi meu, porque eu o quebraria, o quebraria em mil pedaços, o largaria, imprestável, na rua.
A chuva é muito forte, a nuvem acima de mim é muito carregada e você é valiosa demais pra isso.
Vou chorar mais um pouco, talvez muito, vou sentir toda essa dor, de sempre, de novo, vou pensar no seu sorriso, vou tentar adormecer e tentar acordar. Estou tentando sobreviver.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Orfã.

Você me olha
Não me reconhece
Porque nunca soube
Quem eu sou

Você me ouve
Não me escuta
Não me capta
Não me sabe
Não absorve

Você não sabe quem eu sou
Porque eu não sou
O que você sonhou

Você não me queria
Por isso sou teu desgosto
Por isso você morde as bochechas

O nome que você me deu
Eu não quero
Não quero
Esse corpo
Que você me deu
Ainda que eu quisesse
Eu tentei querer
Mas essa não sou eu

Seria menos desgosto pra você
Se eu não tivesse nascido
Eu sei que você tentou
Me abortar
E acha que não conseguiu
Mas você me aborta todos os dias
Desde a vida toda
Você não me deixa nascer
Não me deixa ser
Eu

Mas os seus olhos
Estão em mim
Mesmo assim
Você me nega
Não admite
Tem vergonha de mim
E eu não quero ser nada sua
Nunca fui

Você nunca disse
Que me ama
Eu minto que não me importo
Sempre quis
Que você me sonhasse
Reconstruí essa história mil vezes
Pra ver se doía menos
Mas dói cada vez maior

É uma pena
Eu te decepcionar tanto
Só por ser quem sou
Eu só posso ser o que sou

Dizem que
O teu amor
É o único verdadeiro
Mas se isso existe
Não sinto
Nunca senti

A verdade é que
Nós não nos conhecemos

Me desculpa
Por não ser
Quem você sempre sonhou.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Vozes.

Você é uma idiota, não existe salvação, você vai morrer, sozinha, suas lágrimas não serão enxutas, tua dor não vai sarar, não alimente esperanças, não fale, não ligue, não vai dar certo, você não vai conseguir, nada vai melhorar, você passou da hora, passou do ponto, perdeu a vez, você não teve vez, você não tem, não vai ter, não vai ter nada, nunca, você é isso, você é esse lixo, não vai melhorar, não vai melhorar, não vai melhorar, não vai.
Mais uma noite ruim, uma de tantas, uma de todas, os medos, as dores, a tristeza, a melancolia, os traumas, a violência, o sangue, os medos, os medos, os gritos, o escuro, o desespero, a dor, sem alívio, sem alívio, sem alívio, isso só vai aumentar, só vai piorar, você não pode mais, você não consegue, você já desistiu, isso não é viver, isso não é vida, você sabe que não é, você não aguenta, você não suporta, você é fraca, você é pequena, você não tem paz, você não tem paz, não tem descanso, não tem alívio, não tem, nada ameniza, tudo grita, tudo grita, tudo dói e machuca e machuca, a ferida não cura, não tem cura, só abre mais, você se perdeu no buraco dentro de você, você é o buraco, você não merece, odiável, você é odiável, ninguém vai sentir sua falta, não vai, não vai, você é pesada, só atrapalha, você é repugnante, peso morto, você é um peso morto, vai ser tudo melhor quando você acabar, você é um erro, um erro, você é um erro, conserta isso, você precisa consertar, acabar, você precisa acabar.
Eu estou acabando.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Se eu morresse aos 16.

Hoje acordei pensando em quantas vezes quero desistir de tudo e em alguém que me perguntou "não há nada que te faça querer viver?". A pergunta, no meu sonho, foi seguida de um grande silêncio mais uma maré de pensamentos de pessoas e coisas e eu me senti mal porque estou mesmo estragando tudo.
É claro que existem motivos, eu sei que existem, mas não os sinto, não os sinto suficientemente fortes. Eu vivo perdendo tudo, vivo saindo dos trilhos, desgovernada, atropelando e destruindo tudo, sinto minha vida se esvaindo, quando na verdade todas as esperanças estão acesas, quando ainda tenho amores que me esperam chegar, ansiosos, na rodoviária, quando ainda me dedicam abraços sinceros mesmo eu os negando,  quando recebo mensagens dizendo "não morra, eu te amo e estou aqui", eu não tenho razão pra desistir, não tenho razão pra querer tanto desistir, meu deus, eu sei que não tenho, então por quê?
Vejo teus olhos que me sorriem cada vez mais largo e agora eu começo a enxergar tuas cores, você me parece como o nascer vagaroso do sol em dia nublado, vem chegando devagarzinho e de repente está lá ocupando todo o céu e iluminando tudo, impunemente, mas eu estou assustada, a luz machuca meus olhos, existe melhora? Eu quero te olhar e pensar o quanto eu amo teus olhos verdes, quero esquentar teu corpo e fazer um natal com lasanha de pastel de suflê de abacaxi, você quer me fazer feliz - você já está fazendo, e eu só sei me perguntar: eu posso ser feliz? Quero te fazer bem, eu quero, quero não estragar tudo simplesmente por ser assim, eu preciso conseguir, vou tentar de novo, vou tentar e tentar e tentar e tentar, eu quero. Eu quero.

"Obrigada por estar viva", você disse.

... Obrigada por despertar a vida em mim.