segunda-feira, 29 de junho de 2015

Heroína.

Naquela noite, tudo doía muito. Tudo que sempre doeu, doía demais. Desejava o abraço que cuidava, mas não havia abraço ou cuidado. Precisava se resgatar daquilo tudo. Precisava prover sua própria salvação. Então desejava o sono mais do qualquer coisa embora sempre tivesse pesadelos e sensações horríveis que a faziam acordar pior do que estava quando dormiu.
Entre dormir e acordar, já não sabia qual pesadelo era pior.
Teve algumas idéias - duas linhas horizontais, uma cabeça no forno, uma estômago rasgado, uma ponte alta o suficiente, um caminhão em alta velocidade, meia dúzia de comprimidos bem combinados, uma jugular aberta, um surto seguido de mordidas insistentes, um litro de gasolina e um fósforo aceso, uma onda violenta e um peso no pé, um deitar-se nos trilhos do trem, um secador ligado dentro da banheira cheia, uma cabeça batendo com violência até romper o vidro, deitar-se de barriga pra cima depois de uma injeção e engasgar com o próprio vômito - mas a melhor delas, parecia irresistível.
Sentir-se bem, livrar- se de todas as dores, tocar o paraíso, salvar a noite, salvar o corpo, salvar a mente, se salvar. Lembrou-se do juramento de que nunca mais faria, mas essa era mesmo a última vez. Ela só precisava descansar.
Sete gramas.
Redenção.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Teu amor meu.

Em todos os sentidos você me estragou, eu não consigo mais dizer nada, ouvir nada, escrever nada, pensar em nada, sentir nada, nada parece fazer sentido, nada se compara a você, ao que você me causa, ao que me falta sem você que sempre faltou e você veio e você é tudo e eu só queria odiar você de repente te esquecer pra sempre te avançar, te arrancar a pele e os órgãos ou talvez te socar até não aguentar mais te mastigar as entranhas do coração, os sentimentos vazam meu olhar te direcionar ir embora te ver implorar pra que eu fique então ficar porque eu nunca quis partir porque eu nunca parti porque eu sou você é o meu lugar está em mim é você sou eu somos nós que já não somos nada nem ninguém nem coisa alguma nem o que fomos nem o futuro, não implore eu não quero, eu vou embora, eu não posso me mexer, eu quero fugir pra dentro do teu peito.
Somos a imensidão que cabe dentro de quatorze ou onze símbolos que não são nada como somos quando a gente se é e tudo desaparece e todas as vontades fogem e gritam e correm e eu só quero você me sendo e eu só quero te ser e eu só quero nosso amor e a imensidão que somos e isso tudo que não importa onde cabe, nada comporta nada supre nada preenche porque é só você em mim é só essa vontade enorme de te tragar inteira de te devorar e dilacerar e acabar contigo e te acabar em mim e acabar e ser o fim sem que nada acabe nunca pra sempre.
Em todos os sentidos posso dizer que você me estragou e só assim e agora eu posso ser feliz só você me faz feliz, me devora assim me decompõe assim me preenche me enche me transborda e agora não sei mais viver não sei viver sem você não quero viver você é a vida em mim é a vida na minha vida é a vida que eu jamais quis porque nunca imaginei que pudesse existir algo que me enlouquecesse tanto a ponto de eu querer morrer de tanta vida que você me dá.
Eu te quero toda a vida acabando assim comigo mesmo que muito mais do que é cabível me mata e assim nesse tanto mesmo que pouco sei que morro vivendo muito e tudo em você vivo eu sei que em mim te vivo.