sábado, 25 de abril de 2015

A margarida

O dia estava feio, então avistei a margarida. No meio de todo aquele cinza, uma linda margarida.
A flor me irritou: era bonita demais.
Quem permitiu que aquela plantinha fosse tão feliz no meio de uma rua tão cheia de asfalto?
A florzinha parecia quebrar a feiura. Parecia quebrar a existência. Parecia quebrar minha infelicidade. Ela me dizia alguma coisa.
A vida pode ser bonita apesar de tudo? Talvez.
Me aproximei e a acariciei. Amarelo e branco, diferente de tudo, não soavam tristeza alguma. Olhei por alguns instantes, quase pensei em como ela havia crescido naquele lugar.
De uma vez só, arranquei ela dali, enfiei inteira na boca. Mastiguei cada fibra. Degustei cada textura. Senti o atrito nos dentes. Não senti satisfação nem remorso. Não senti nada. Hora de engolir.
O gosto não era ruim nem bom.
A vida permaneceu cinza e a margarida nunca existiu.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Fraqueza.

A cada noite que se passa, me acerto mais de que não quero essa coisa de viver. Agora é questão de tempo.
Achei mesmo que tudo isso poderia mudar, que a existência poderia doer e pesar menos e que a vida poderia ser feliz e válida. Mas não pode.
Se a tentativa é tudo, eu não sei. Sei que não quero. Não mais.
Então vou dormir mais essa noite, assim que meu estômago cansar de me fazer vomitar até as tripas, assim que minha cabeça ceder a toda dor do corpo e me apagar, assim que me acabar de chorar faça meus olhos pesarem.
Eu já desisti de tentar, me entreguei. Agora é questão de tempo. Pouco tempo.
Eu só quero que isso tudo acabe.