quinta-feira, 30 de abril de 2015

O solo e a árvore

"Eu preciso que você viva, porque eu não posso mais."


A árvore cresceu e eu não alcanço pra podar.
Eu tenho medo. Medo. Medo de abrir minha vida assim porque tudo acaba e vai embora quando então você deixou que sua vida fosse isso e quando isso não é mais, tem que se reconstruir toda. Tem que fazer de novo. Aprender a viver de novo. Construir de novo. E isso é sempre.
Porque sempre que alguém que você ama vai, você nunca volta inteiro. Volta com um buraco que não dá pra encher de nada. A gente fica meio morta. E eu tenho medo.
É difícil soltar tudo e dar esses passos maiores que eu. Porque a gente dá o passo e então o chão da frente não sustenta e o de trás não existe mais, e a gente fica lá embaixo, nesse lugar que não é nada mas é tão grande. A gente também tira o chão de quem gosta, daí a pessoa tem que reconstruir e reconstrói sem você daí dói mais ainda.
Ou você abre a mão que te segura na mão da pessoa e aí sabe,
ela acaba
e você acaba também.
E você desce.
Eu já subi tantas vezes mas nunca sai lá de baixo. A vida me moldou assim.
Precisa destruir isso tudo e ver com clareza as linhas e ver de novo, e colocar no lugar certo, e subir a escada.
Mas tem que ficar revivendo tudo,
vendo de novo,
quando tem coisa que ainda te arrebenta por dentro e te deixa nesses dias em que você chora a vida toda sem saber porquê e não consegue se mexer porque sua vida é aquilo e que não vai sair de lá nunca mais. Que tem que deixar quem você gosta viver e
achar alguém que possa dar aquilo que você sente que nunca vai conseguir mas que quer tanto.
Então a gente sente o quanto não ter a pessoa do lado dói.
E o quanto você quer ser essa pessoa. O quanto você quer entrar e fazer carinho em cada cantinho e quer sua vida dentro dos cantos daquela casa.
Mas tem a vida toda,
tem a gente.
Porque a gente sempre tem uma parte que
que
que é um cantinho sujo onde escondemos e jogamos todas as aranhas pra poder viver.
Acontece que às vezes a gente entra nesses cantinhos e sente que não vai sair. Sente que ali é nosso lugar.
Daí não sente a vida, não sente. Só vê tudo vazio e quando vê a claridade, se interna mais ainda.
Tem que tentar quebrar isso todo dia.
Pra poder continuar,
pra poder deixar alguém entrar inteiro.
Sabe, não era por isso. Você sabe que não era. Mas foi se tornando. Foi crescendo a árvore e morrendo a terra que segura a raíz.
Precisa mudar tudo.
Tudo por dentro.
Mas não de fazer outro. Sim de fazer de novo, dentro do que já é.
Daí a gente fica nisso de
querer soltar a árvore e deixar ela se decompor e nascer de novo de outro jeito.
Parece que a gente não quer ter a árvore.
E que.
Mas é só medo.
Tem que lutar contra isso. Desgasta.
Desgasta tanto que a gente fica assim vulnerável, parecendo criança, se doendo com qualquer coisa que entra.
A gente sabe que quer ser o solo da árvore. Ser o que guarda a raíz. É o que mais se quer.
Mas a gente vê a árvore se desprendendo.
E sente que precisa deixar. Que não pode dar o que ela precisa. Daí só quer se enfiar mais no cantinho, pra sempre. E não,
e não sair nunca mais.
Mas não quer,
não quer.
Mas o medo ainda é maior.
Porque foi em cima dele,
em cima dele que seu solo se construiu.
É difícil poder se nutrir e guardar a árvore. Mesmo sendo o que mais quer.
... E ver as folhas dela se desprendendo e caindo em você,
mostrando que a árvore não suporta mais.
Não saber o que fazer,
porque...
Porque tudo vai se alterando dentro de você tão devagarzinho e a árvore morrendo tão rápido e precisando mais,
mais.
E aí o medo grita.
Grita.
E a gente fica perdido, achando que tem que ceder,
que tem que soltar a árvore
pra ela poder se plantar em algum lugar,
poder viver um pouquinho.
Mas o solo sem a árvore, é só um punhado de terra, onde não dá pra ficar. Onde a gente não quer ficar.
E aí continua se destruindo e construindo, pra poder se acalmar, sossegar o medo e deixar tudo ser o que é, se desguardar do cantinho. Mas então você não sabe pra que,
nem porquê.
Porque a árvore precisa de um outro solo.
E fica tudo vazio
nesse tanto faz,
nesse não fazer nada,
nesse não saber
nesse precisar.
Nisso.
Mas a gente sabe que só quer poder voltar a florescer,
como era antes. E poder ser primavera pra árvore.
E a gente chora, e grita, e não sabe,
e não sabe.
A gente só queria sair do cantinho pra poder quebrar as coisas mais rápido - porque de lá de dentro demora muito, e gritar pra árvore, antes de ela enterrar as raízes em um lugar melhor:
"- Olha!
Volta aqui,
Que é tudo seu.
E foi feito pra você usando toda coisa boa que tenho.
Pode frutificar!
Eu vou te fazer frutificar.
Pode conhecer todo o jardim.
E todo o solo novo.
Pode soltar a respiração que segura tem tanto tempo,
E respirar.
Porque aqui é tudo fresco
E pra você
E com você.
Pode desbravar cada parte,
Vou estar com cuidado em cada folha tua."
Mas o cantinho é tão, tão mais apertado de sair do que a gente pensa. Daí a gente fica nisso.
Nisso que eu tô fazendo com você.
Nessa coisa que a árvore não aguenta mais e que dói.
E aí gente não sabe o que fazer.
E faz tudo errado.
Mas é só o que a gente consegue fazer.
E aí a gente chora a vida toda,
e vai pra casa, precisando de colo, perguntando mil vezes embolado na respiração se a gente está matando a árvore e tem que deixar ela sair e viver.
E aí a gente chora mais. E pede carinho no cabelo pra tentar dormir pra sempre.
E aí a gente não sabe.
Aí a gente ouve pra deixar a árvore viver.
E aí fica remoendo que quer que a árvore viva com a gente.

Eu só quero poder guardar a árvore.


As palavras são todas suas.
Como não poderiam ser?




sábado, 25 de abril de 2015

A margarida

O dia estava feio, então avistei a margarida. No meio de todo aquele cinza, uma linda margarida.
A flor me irritou: era bonita demais.
Quem permitiu que aquela plantinha fosse tão feliz no meio de uma rua tão cheia de asfalto?
A florzinha parecia quebrar a feiura. Parecia quebrar a existência. Parecia quebrar minha infelicidade. Ela me dizia alguma coisa.
A vida pode ser bonita apesar de tudo? Talvez.
Me aproximei e a acariciei. Amarelo e branco, diferente de tudo, não soavam tristeza alguma. Olhei por alguns instantes, quase pensei em como ela havia crescido naquele lugar.
De uma vez só, arranquei ela dali, enfiei inteira na boca. Mastiguei cada fibra. Degustei cada textura. Senti o atrito nos dentes. Não senti satisfação nem remorso. Não senti nada. Hora de engolir.
O gosto não era ruim nem bom.
A vida permaneceu cinza e a margarida nunca existiu.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Fraqueza.

A cada noite que se passa, me acerto mais de que não quero essa coisa de viver. Agora é questão de tempo.
Achei mesmo que tudo isso poderia mudar, que a existência poderia doer e pesar menos e que a vida poderia ser feliz e válida. Mas não pode.
Se a tentativa é tudo, eu não sei. Sei que não quero. Não mais.
Então vou dormir mais essa noite, assim que meu estômago cansar de me fazer vomitar até as tripas, assim que minha cabeça ceder a toda dor do corpo e me apagar, assim que me acabar de chorar faça meus olhos pesarem.
Eu já desisti de tentar, me entreguei. Agora é questão de tempo. Pouco tempo.
Eu só quero que isso tudo acabe.