terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Intervalo.

Eu queria falar de uma coisa diferente, ser uma coisa diferente, mas em todos as noites a dor me ocorre, gritante, a dor que eu enfio o dia inteiro no bolso, a que eu costuro nos cantos, que prendo com a vida, ela explode, emana, solta como se eu a pertencesse e eu não tenho forças, estou arruinada, jogada no chão, ruí, mais uma vez, desmoronei, sem que ao menos tivesse me colocado de pé. Por que dói tanto? Já não importa, já me perdi, não sei mais o que sou eu o que é dor ou se eu sou a dor ou se a dor sou eu, não consigo administrar o que perdi, não sei se já tive alguma coisa, coloco tudo em dúvida, até as sensações mais certas, até o amor, até a própria vida. Eu nem sei mais me desesperar, nem sei mais falar, nem preciso fingir, já não se estampa, é morto, tão morto, é escuro e denso, isso que me puxa, que toma conta de tudo. Quando eu penso em respirar, um pouco, aliviada, isso me afoga, me afoga. Dói, dói demais. Não para de doer, não para nunca, sempre doeu. A dor sou eu.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Admiração.

Meu olhar atento
Latente
Não se contém

A fita
- indeiscente e sagaz,
Tentando percebê-la

Ela parece
Ter apreendido (ou aprendido)
A felicidade

Na simplicidade
De ser

Tua alma

Me soa
Um tanto quanto entendida
Da vida que é

E que foi

Desinteressada
No será

Ela parece feliz
Apesar de saber
que sabe doer

Ela é bonita
E delicada

Nebulosa
Mas tão transparente

Humana

Me traz alguma paz
E esperança

Capta o suspiro

Sinaliza que sim
Como quem acredita

Dá a dica

Vale a pena
O destino é prosseguir

Ela pisca

Absorvo
Absolvo

"Boa sorte".

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Altruísmo.

Quando todas as músicas tristes fizerem sentido
E quando não houver mais dia

Quando eu não souber sorrir
Nem comer
Nem cantar ou sonhar

Quando não enxergar o céu
E os olhos estiverem pesados demais

Quando as palavras se perderem
E a memória se for

Quando eu estiver acabando
Mais do que estou agora

Quando tudo estiver acontecendo
Definitivamente
Quando eu estiver no ponto final do fim
De tanto definhar

Quando eu não aguentar mais
E arrancar meus cabelos
E abrir minha pele
E rir do vermelho

Quando eu não souber mais de mim
Nem do amor
Nem de nada

Quando isso acontecer
E está acontecendo
E você sabe que vai

Quando você sentir que precisa me cuidar
Porque sou incapaz
(sempre fui incapaz)
Quando teu carinho quiser salvar minha vida
Quando eu te olhar feito criança
E perguntar mil vezes embolando na fala
Se o natal é amanhã
Quando a tua ternura se acender
E queimar toda a minha dor no teu peito

Quando eu te ver chorar
Por minha causa
E não souber por que
Vou te amar
Tão forte
Tão forte
Tão forte

Vou te querer pra sempre
Pra sempre

Então antes que te aprisione
Antes que eu não possa mais pensar
Antes que as redes te enlacem
Preciso dizer

Quando o amor
Te fizer sentir
Que precisa dar a sua vida por mim

Me abandone.

Às vezes quando acordo, tudo está desabando. Me sinto um barranco, que desmoronando, leva a casa toda ao chão, fazendo aquele desastre, que todo mundo já sabia que faria, porque afinal, a natureza do barranco é deslizar.
Você já sentiu como se seu destino fosse realmente doer? Me sinto tanto assim. E nem em destino eu costumava acreditar. Não costumava acreditar em nada, mas quando tudo me espreme e me aperta assim, eu peço pra todos os deuses e santos e crenças pra que isso pare, por favor, preciso que pare.
Talvez eu não queira morrer.
Eu não quero morrer.
Só quero que pare de doer tanto.

Sutilezas e desejos.

Você não sabe o quanto te anseio.

Quando estou triste, você me traz a paz que eu não tenho, você me acalma, meu corpo te quer, você é meu aconchego, meu quentinho, onde posso me esconder e ser triste e chorar a vida toda encostada no teu colo, enquanto você me olha e diz que não estou sozinha.
Quando estou tão triste assim, preciso das tuas mãos em mim, pra me dizer que eu sinto, as tuas mãos que me dizem que estou viva, as tuas mãos em mim, firmes, me segurando, tuas mãos firmes que quando - sempre - desfaleço não me permitem cair e morrer.
Você alivia todas as dores, não sei mais como dizer, que as tuas mãos em mim fazem escorrer toda a podridão que tenho dentro, você é como água limpa, corrente, refrescando meus pulsos. Ainda assim tão triste, gozo do bem que você me faz quando me toca, o ritmo que você tem, o jeito como vai fundo e vai forte, irresistivelmente me fazendo sentir, te sentir, sentir que você está em mim, está em mim, dentro de mim, que é você que me faz sentir, você que faz as minhas pernas trêmulas, é você que esvazia minha mente quando me enche de você, invadindo, por todos os lados, latejando por todos os cantos e correndo rápido nas veias, por todo o meu corpo, pelos meus olhos e pela minha boca que não consegue se fechar, pelos meus gritos dementes que anunciam que é você que me cura, que é você que me faz sentir. Você me tira da minha lama e me esvazia, então você me acalma e eu durmo nos teus braços.

domingo, 1 de novembro de 2015

Green eyes.

Te escrevo pra me desculpar daquilo que não tem perdão.

Quando meu sangue escorrer
é pra você que eu vou sorrir
Quando meu sangue escorrer
é pra você que vou cantar

É em você que eu penso
sempre que abro a janela
É em você que eu penso
pra não me jogar.

Não sei como fazer
tudo parar de doer tanto
Você vem e alivia toda a dor

Você me inunda
Teus olhos cheios me afogam
Quero viver por você

Porque se você for comigo
Eu vou
Mesmo que não haja mais pra onde ir
Mesmo que não exista mais
caminho ou rua pra andar
Se você for
eu vou.

Fracasso.

Jurei que não ia fazer isso contigo, que não ia fazer isso com a gente, mas veja só, eu estou fazendo de novo, como fiz todas as vezes, todas as vezes, jurei que não faria.
Estou aqui, escrevendo, pra me desculpar mais uma vez, do que não tem perdão.
Não sei por que eu faço isso, juro que não sei.
Eu só queria te fazer bem e ficar bem
e viver ao menos tranquila, com sorrisos e bom dia, mas minha vida teima em ser essa abismo, esse buraco escuro que atrai e destrói tudo que chega perto.

Não quero que você se perca.

Não quero que você se perca por minha causa.

Não quero que você se perca em mim.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Inundações.

Estou tentando sobreviver. Penso tanto tanto em morrer que às vezes me pergunto se não seria mesmo melhor. Acho que seria. Sinto que seria. Esses dias têm chovido, chovido muito e eu odeio me molhar. Quando eu era criança lembro de adorar sentir as gotas, o frio, era tão vivo, agora, me sinto doente e menor que antes. Eu não uso guarda-chuva porque não sei ter abrigo, eu nunca tive, não consigo me sentir bem, mas acontece que as gotas estão geladas demais e minha pele dói.
Ouço música, leio, faço mantras e arranho a pele, tento me acalmar, tento desfocar e escrevo aqui, escrevo pra não te ligar e dizer que eu quero morrer, pra não te pedir um abraço, te pedir desculpa por não conseguir, pra não te pesar, como sempre faço. Me recorre "preciso de ajuda, não sei quanto mais eu seguro", mas não consigo fazer nada. Nada. Você se parece com aquele guarda-chuva amarelo, que eu sempre quis que me protegesse, que fosse pra chuva comigo, aquele que eu sempre quis, que nunca foi meu, porque eu o quebraria, o quebraria em mil pedaços, o largaria, imprestável, na rua.
A chuva é muito forte, a nuvem acima de mim é muito carregada e você é valiosa demais pra isso.
Vou chorar mais um pouco, talvez muito, vou sentir toda essa dor, de sempre, de novo, vou pensar no seu sorriso, vou tentar adormecer e tentar acordar. Estou tentando sobreviver.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Orfã.

Você me olha
Não me reconhece
Porque nunca soube
Quem eu sou

Você me ouve
Não me escuta
Não me capta
Não me sabe
Não absorve

Você não sabe quem eu sou
Porque eu não sou
O que você sonhou

Você não me queria
Por isso sou teu desgosto
Por isso você morde as bochechas

O nome que você me deu
Eu não quero
Não quero
Esse corpo
Que você me deu
Ainda que eu quisesse
Eu tentei querer
Mas essa não sou eu

Seria menos desgosto pra você
Se eu não tivesse nascido
Eu sei que você tentou
Me abortar
E acha que não conseguiu
Mas você me aborta todos os dias
Desde a vida toda
Você não me deixa nascer
Não me deixa ser
Eu

Mas os seus olhos
Estão em mim
Mesmo assim
Você me nega
Não admite
Tem vergonha de mim
E eu não quero ser nada sua
Nunca fui

Você nunca disse
Que me ama
Eu minto que não me importo
Sempre quis
Que você me sonhasse
Reconstruí essa história mil vezes
Pra ver se doía menos
Mas dói cada vez maior

É uma pena
Eu te decepcionar tanto
Só por ser quem sou
Eu só posso ser o que sou

Dizem que
O teu amor
É o único verdadeiro
Mas se isso existe
Não sinto
Nunca senti

A verdade é que
Nós não nos conhecemos

Me desculpa
Por não ser
Quem você sempre sonhou.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Vozes.

Você é uma idiota, não existe salvação, você vai morrer, sozinha, suas lágrimas não serão enxutas, tua dor não vai sarar, não alimente esperanças, não fale, não ligue, não vai dar certo, você não vai conseguir, nada vai melhorar, você passou da hora, passou do ponto, perdeu a vez, você não teve vez, você não tem, não vai ter, não vai ter nada, nunca, você é isso, você é esse lixo, não vai melhorar, não vai melhorar, não vai melhorar, não vai.
Mais uma noite ruim, uma de tantas, uma de todas, os medos, as dores, a tristeza, a melancolia, os traumas, a violência, o sangue, os medos, os medos, os gritos, o escuro, o desespero, a dor, sem alívio, sem alívio, sem alívio, isso só vai aumentar, só vai piorar, você não pode mais, você não consegue, você já desistiu, isso não é viver, isso não é vida, você sabe que não é, você não aguenta, você não suporta, você é fraca, você é pequena, você não tem paz, você não tem paz, não tem descanso, não tem alívio, não tem, nada ameniza, tudo grita, tudo grita, tudo dói e machuca e machuca, a ferida não cura, não tem cura, só abre mais, você se perdeu no buraco dentro de você, você é o buraco, você não merece, odiável, você é odiável, ninguém vai sentir sua falta, não vai, não vai, você é pesada, só atrapalha, você é repugnante, peso morto, você é um peso morto, vai ser tudo melhor quando você acabar, você é um erro, um erro, você é um erro, conserta isso, você precisa consertar, acabar, você precisa acabar.
Eu estou acabando.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Se eu morresse aos 16.

Hoje acordei pensando em quantas vezes quero desistir de tudo e em alguém que me perguntou "não há nada que te faça querer viver?". A pergunta, no meu sonho, foi seguida de um grande silêncio mais uma maré de pensamentos de pessoas e coisas e eu me senti mal porque estou mesmo estragando tudo.
É claro que existem motivos, eu sei que existem, mas não os sinto, não os sinto suficientemente fortes. Eu vivo perdendo tudo, vivo saindo dos trilhos, desgovernada, atropelando e destruindo tudo, sinto minha vida se esvaindo, quando na verdade todas as esperanças estão acesas, quando ainda tenho amores que me esperam chegar, ansiosos, na rodoviária, quando ainda me dedicam abraços sinceros mesmo eu os negando,  quando recebo mensagens dizendo "não morra, eu te amo e estou aqui", eu não tenho razão pra desistir, não tenho razão pra querer tanto desistir, meu deus, eu sei que não tenho, então por quê?
Vejo teus olhos que me sorriem cada vez mais largo e agora eu começo a enxergar tuas cores, você me parece como o nascer vagaroso do sol em dia nublado, vem chegando devagarzinho e de repente está lá ocupando todo o céu e iluminando tudo, impunemente, mas eu estou assustada, a luz machuca meus olhos, existe melhora? Eu quero te olhar e pensar o quanto eu amo teus olhos verdes, quero esquentar teu corpo e fazer um natal com lasanha de pastel de suflê de abacaxi, você quer me fazer feliz - você já está fazendo, e eu só sei me perguntar: eu posso ser feliz? Quero te fazer bem, eu quero, quero não estragar tudo simplesmente por ser assim, eu preciso conseguir, vou tentar de novo, vou tentar e tentar e tentar e tentar, eu quero. Eu quero.

"Obrigada por estar viva", você disse.

... Obrigada por despertar a vida em mim.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015


Não consigo te ver com clareza,

você costumava ser minha certeza,

mas a verdade é que você nunca foi

mesmo

ninguém.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A leveza do que somos.

Um pouco antes de adormecer, te desejei bem perto,
em mim.

Quando dormi, recebi meus fantasmas
e eles me disseram que eu sou sozinha.
Diante do meu pesadelo, chorei,

mas quando acordei, você me olhou

e disse

"eu estou aqui",

assim, os fantasmas já não me soavam tão assustadores,
a noite não me parecia tão escura

e teus olhos me pareciam o mundo.

Tudo pesa,
mas você não.

Você é leve.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Debaixo dos seus cílios.

Todos esses dias em que eu tenho percebido o quanto temos sofrido, todos esses dias em que eu sento no sofá e te olho e você ri de algo que eu não vejo a mínima graça, todos esses dias em que vejo seus olhos, tão meus, me encarando, espertos, em todas essas vezes quando você parece carregar uma chave escondida na manga, eu sinto um aperto no peito. Um aperto que me diz "aproveita, está acabando", um aperto que tritura e tritura alguma coisa aqui dentro que eu nem sabia que existia. Eu não diria que é medo de te perder, pois eu nunca te senti perto, mas algo me comove no nosso contato, algo me faz doer quando você chora, algo me faz levantar as sobrancelhas quando percebo teu sorriso forçado só pra eu não ficar sem graça, algo me faz te dar o que eu mesma não tenho. Será que é isso que corre em minhas veias? Eu não sei.
Ainda lembro de tudo que você fez, de tudo que você não fez, ainda choro porque você não estava lá, porque você nunca esteve aqui, me entristeço da sua vergonha, odeio querer ser o que te orgulha, odeio ainda desejar o teu reconhecimento, odeio estar me atentando a cada milímetro da tua companhia. Ainda sinto falta do teu "eu te amo" e ainda digo que ficou bom quando não ficou, ainda desejo morrer por você não ter sido minha terra, mas talvez você só não pudesse. Você talvez não possa.
O teu "eu te amo" não veio, nunca veio, se ele existe, não sei.
Tenho tantas coisas pra te mostrar, mesmo sabendo que você não se importa, que não quer ver, que não entende, que vou me frustrar, que vou odiar, que vou amaldiçoar isso tudo.
Tem tanta coisa pra viver ainda, eu sei que tem, embora eu viva querendo morrer, eu queria tanto poder te provar que tudo pode ser bem mais que isso. Eu sei que pode. Sei que você não acredita em mim, sei que não me acha capaz, que me acha ridícula, que se pudesse escolher, escolheria diferente mas olha, amanhã teremos uma noite alegre, como têm sido as últimas terças-feiras, estaremos embreagadas com uma dessas alegrias banais e bem no meio disso tudo, eu vou me entristecer, vou sim, bem no meio, vou ver teu sorriso e alguma coisa vai me pesar, eu sei que vai, sei que tem pesado, eu te sinto desligando e ficando cada vez mais fraca e distante, devagar e devagar, desbotando e desbotando, mas, por favor, não vai ainda. Eu não estou pronta. Sei que você diz que precisa, sei que finge que não tem medo, que diz que é natural. Mas não agora. Por favor, não agora. Me deixa dizer isso por mais um pouco de tempo, talvez por muito tempo, talvez eu diga pra sempre, eu achei que estava pronta mas não estou, eu achei que podia mas não posso. Eu não posso e você não pode, não assim, não agora, por favor. Está tudo piorando e difícil, eu sei, mas eu apenas não posso suportar. Por favor, não vá embora.

sábado, 11 de julho de 2015


A dor de esperar por algo
que nunca vem.

A dor de saber que esse algo não vem
e mesmo assim
continuar
esperando.

Mais um dia,
de derrota,
mais uma noite
esperei,
fracassei de novo.

As tentativas todas
em vão.

É...

Não foi
dessa vez,
não foi

nessa vida.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Os dias de solidão estão de volta.

Silêncio. Acima de tudo, o silêncio, intocável.
A casa vazia, o escuro.
A música, se fazendo muda.

Os livros que tudo falam, mas não lhes dou ouvidos.
Na verdade, nada importa agora.
Desacelerei.

Sobre a minha saudade.

Porque nem toda saudade é feia e sofrida, nem toda saudade é tão dolorosa. Algumas são coloridas, bem humoradas e de vez em quando, até servem de companhia.
Há saudade que faça falta. Tem saudade que foge e já não mais se encontra. Existem saudades passageiras e outras bem teimosas... Saudades de verão. Há aquela que você sabe que te machuca mas não permite que ela se vá.
Às vezes, a saudade é tudo que resta daquilo que foi belo, mesmo amarga, torna-se bonita, trágica, sensível. Se livrar dessa saudade significa aniquilar de uma vez por todas o sentimento. A saudade nos conserva resquícios de amor.

Começar
Um assunto qualquer
Um olhar
Diferente
Um começo
Exatamente igual
Qualquer
Outro
Mau começo

Tudo era
Especial
Quase nada
Atrapalharia
O que não
Foi

Terminar
O que
Ficou no olhar
Diferente
Terminou
Exatamente igual
Não.
Foi diferente.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Heroína.

Naquela noite, tudo doía muito. Tudo que sempre doeu, doía demais. Desejava o abraço que cuidava, mas não havia abraço ou cuidado. Precisava se resgatar daquilo tudo. Precisava prover sua própria salvação. Então desejava o sono mais do qualquer coisa embora sempre tivesse pesadelos e sensações horríveis que a faziam acordar pior do que estava quando dormiu.
Entre dormir e acordar, já não sabia qual pesadelo era pior.
Teve algumas idéias - duas linhas horizontais, uma cabeça no forno, uma estômago rasgado, uma ponte alta o suficiente, um caminhão em alta velocidade, meia dúzia de comprimidos bem combinados, uma jugular aberta, um surto seguido de mordidas insistentes, um litro de gasolina e um fósforo aceso, uma onda violenta e um peso no pé, um deitar-se nos trilhos do trem, um secador ligado dentro da banheira cheia, uma cabeça batendo com violência até romper o vidro, deitar-se de barriga pra cima depois de uma injeção e engasgar com o próprio vômito - mas a melhor delas, parecia irresistível.
Sentir-se bem, livrar- se de todas as dores, tocar o paraíso, salvar a noite, salvar o corpo, salvar a mente, se salvar. Lembrou-se do juramento de que nunca mais faria, mas essa era mesmo a última vez. Ela só precisava descansar.
Sete gramas.
Redenção.

sábado, 23 de maio de 2015

Silêncio.

Dá vontade de gritar, enfiar nessa tua cabeça minhas razões. Mas me calo.

O silêncio é o castigo.
Se eu sofrer por não dizer
é o seu castigo.
Se não houver reconciliação,
é o seu castigo.
O seu castigo é não ter.

... E o meu também.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Descompasso.

Três dias de insônia.
A mente, tão acelerada que nem consigo organizar os pensamentos. O corpo, depressivo, mais uma vez. Tudo misturado. Tudo sucumbindo. A falta toda, a energia toda, a falta de energia total. Tudo de novo. De novo, de novo e de novo. A falta de motivação pela vida, pelo simples motivo de que nada muda nunca. Não importa o quanto eu tente, vai ser sempre assim.
Daí todo mundo dorme, todo mundo tem seus afazeres e eu, afundando. Durante alguma parte do dia finjo que está tudo bem, finjo que não sei muito bem onde isso vai dar. Então vou ler, ouvir música, tentar fazer qualquer coisa que o corpo deixa, que a energia deixa. Ou não fazer nada. Ficar horas, na cama, fritando a cabeça em mil coisas. E os pensamentos ruins. Muitos pensamentos ruins, rápidos e muito ruins. E a coragem que cresce. E a dor. Porque remédios não curam isso.
Em alguns momentos, me esforço pra sustentar algum pensamento leve. Penso na surpresa boa que poderia ser o futuro, no amor. Mas daí ouço a terapeuta dizendo que "acordar com uma pessoa e dormir com outra" desgasta qualquer relação. E machuca.
Eu não queria ser assim, mas só sei ser o que sou, só posso ser o que sou. Só, más notícias: instabilidade e solidão. Uma terrível solidão. Porque ninguém quer  acompanhar esse ritmo, ninguém pode.
Então penso como pode alguém viver assim, porque isso não é vida. Mas acontece que não existe outro modo. Não pra mim.
Viver é uma perda.

sábado, 25 de abril de 2015

A margarida

O dia estava feio, então avistei a margarida. No meio de todo aquele cinza, uma linda margarida.
A flor me irritou: era bonita demais.
Quem permitiu que aquela plantinha fosse tão feliz no meio de uma rua tão cheia de asfalto?
A florzinha parecia quebrar a feiura. Parecia quebrar a existência. Parecia quebrar minha infelicidade. Ela me dizia alguma coisa.
A vida pode ser bonita apesar de tudo? Talvez.
Me aproximei e a acariciei. Amarelo e branco, diferente de tudo, não soavam tristeza alguma. Olhei por alguns instantes, quase pensei em como ela havia crescido naquele lugar.
De uma vez só, arranquei ela dali, enfiei inteira na boca. Mastiguei cada fibra. Degustei cada textura. Senti o atrito nos dentes. Não senti satisfação nem remorso. Não senti nada. Hora de engolir.
O gosto não era ruim nem bom.
A vida permaneceu cinza e a margarida nunca existiu.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Fraqueza.

A cada noite que se passa, me acerto mais de que não quero essa coisa de viver. Agora é questão de tempo.
Achei mesmo que tudo isso poderia mudar, que a existência poderia doer e pesar menos e que a vida poderia ser feliz e válida. Mas não pode.
Se a tentativa é tudo, eu não sei. Sei que não quero. Não mais.
Então vou dormir mais essa noite, assim que meu estômago cansar de me fazer vomitar até as tripas, assim que minha cabeça ceder a toda dor do corpo e me apagar, assim que me acabar de chorar faça meus olhos pesarem.
Eu já desisti de tentar, me entreguei. Agora é questão de tempo. Pouco tempo.
Eu só quero que isso tudo acabe.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Estou passando por uma fase de bloqueio.

Hoje perguntei para a minha professora de língua portuguesa, se "escrever bem" é questão de técnica ou de talento. Pergunta tola, sim. Perguntei porque queria ouvir que se estudasse – mesmo que bastante – poderia ser realmente convincente. Ela respondeu que era uma questão do processo que vem antes da escrita, do cognitivo. Articular pensamentos. O que acontece antes do papel, organizar as idéias. Pois bem, estou vivendo um bloqueio.

Eu já soube articular pensamentos. Mas o que se diz quando não se tem nada a dizer?

Não estou falando da escrita (acontece que tudo ultimamente anda me impulsionando pra uma crise de desespero silencioso direcionado e bem convicto, desses que nem mudam a expressão dos olhos), claro que não.

Nesse momento o amontoado de coisas soltas e integradas pressiona e... Torna-se nada.

Exatamente. Nada.

É como se tanta coisa, não formasse coisa alguma.

Não é aquele nada em branco, de paz. É um nada pesado. Um nada de “tanta coisa que não faz forma”. Parece que os acontecimentos, a rotina, os amigos, o amor, não falam comigo. É como um trem passando por suas estações: eu, a maquinista.

Não faço mais do que a rota nem menos que o esperado. Faço o que tenho que fazer, carrego o que preciso carregar até onde e enquanto preciso. Cumpro minhas obrigações.

Bloqueio pode ser bom. Me faz parecer fantasma. Mas fantasma que não assusta ninguém. Me transforma em escrava de mim. Não da parte do bel prazer. Escrava daquela parte de nós que faz com que levantemos de manhã em dia frio. Aquela que te empurra pra vida social. Daquela que diz que tens que ser bom filho, bom pai, bom cidadão, bom trabalhador, bom companheiro. Daquela que te diz que “tens que” um monte de coisa.

Eu não “tenho que” nada. Ninguém “tem que” nada. Entretanto, nós sempre “temos que" tanta coisa...

Meu bloqueio não me deixa desistir (meu porque se instalou, folgado, e agora já o adotei). Meu bloqueio contém meus impulsos. O bloqueio me prende na minha liberdade. Viva ao bloqueio que me impede de criar, de intensificar, de ser qualquer coisa além do que devo.