quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Banalidades, pt. 2

Já estava escuro quando resolveu sair.
Ela decidiu que tinha que fazer algo: levantar daquela cama, arrumar aquela cara e sacodir a poeira que deixava sua alma tão pesada. Fantasiou que o dia tivera sido diferente de todos os outros de sua vida.  Tinha pensamentos sedentos de coisas novas e uma ânsia de sair daquele lugar -  ânsia que ela conhecia muito bem.
Ainda deitada em sua cama - que ela não arrumava há meses, talvez anos, quem sabe - teve um devaneio. Quase que uma pequena e deliciosa epifania. Seria bom ser diferente. Ser feliz, pra variar. Seria bom ter um sorriso pra presentear alguém ou uma história engraçada pra contar. Por horas se deliciou pensando que talvez - isto é, talvez - fosse bom ter um amor. Mas não por que dizem que o amor traz felicidade e sim por ser, na concepção dela, uma razão digna. Tanto sofrimento, deveria ser digno de algo sublime: sentia-se ridícula por ser tão triste simplesmente por ser e sentir assim, mas sabia que isso por si só, não a faria mudar. Precisava de bem mais que isso.
Então em meio a esses pensamentos tortuosos, concluiu que aquele dia era exatamente como todos os outros. Sentou-se na cama, estava faminta. Olhou para a cabeceira que estava tão bagunçada quanto a cama e tomou seu café frio de um ou dois dias atrás (a cozinha ficava relativamente distante do quarto, sendo assim teria que se levantar, calçar os chinelos e se arrastar pela casa, e essa hipótese de movimento a incomodava sobremodo. O café não era tão importante). A noite não a esperou sair: já era dia. Era dia e era também mais uma madrugada que tinha sido desperdiçada com pensamentos sem ação. Ficou ali por alguns minutos, parada, observando a falta de movimento de seu quarto, ainda segurando a xícara fria que agora estava vazia.
A moça não sabia, mas naquele dia que era "exatamente como todos os outros", o destino se encarregaria de mudar sua vida por completo.
Um pouco depois, lá estava Melissa, na janela, observando o brilho do sol, habitualmente às 10 da manhã, quando ele apareceu. A rua estava bem movimentada pro horário, aparentemente era feriado ou alguma coisa do tipo. Os vizinhos todos estavam enfeitando a rua para a festividade que, segundo os comentários, aconteceria mais tarde. Mesmo com todo o movimento, ela não pôde deixar de notar o homem mal encarado que (mal) estacionava seu carro em frente à garagem da casa ao lado. Ele não era bonito, nem simpático, muito menos parecia agradável. Era grosseiro e usava uma jaqueta de couro rasgada no ombro. Tinha barba mal feita e a arrogância que ele exalava fez com que Melissa, imediatamente fitasse os olhos nele. O carro estava parado na frente da placa de proibido estacionar, mas ninguém parecia engajado a reclamar. Todos pareciam estar um pouco assombrados com aquela figura incomum rondando o local. Observando, rapidamente, ela percebeu o quanto incomodados os vizinhos estavam: deviam pensar que “o cara da jaqueta rasgada no ombro” poderia ser perigoso ou uma ameaça, sobretudo a sensação que ele causava a agradou. Sentiu-se irresistivelmente atraída, por isso estava decidida a se aproximar dele.

(Texto escrito em 2008.)

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