terça-feira, 30 de outubro de 2012

Incertezas.

Outro dia, estava eu na estação da Luz esperando o trem para ir trabalhar, quando no meio daquela multidão, uma moça me chamou a atenção.
Ela não era bonita nem bem vestida, nem me parecia saudável ou simpática. Era séria, cara amarrada. Expressão sombria. Parecia até personagem de filme de terror.
Fiquei receosa em observá-la, parecia tão mal. Magrela, meio curvada, a cara da fraqueza. Pele bem branca, aparência de morta, cabelo bem preto, opaco. Talvez ela viesse de algum enterro...
Algo horroroso cercava aquela garota. Havia uma nuvem negra acima de sua cabeça e era quase visível.
Mais alguns minutos esperando o trem, eu a fitava mais fixamente. Fiquei pensando o que levava aquela jovem àquele estado. Tão triste, evidentemente doente. Mil pensamentos me invadiram. Criei mil vidas e mil desgraças para cada vida. "Que terrível! Que dó!" - O barulho que anunciava a chegada do trem calou meus pensamentos.
O trem finalmente abriu as portas e lá estava a garota, caminhando depressa. Notei algo diferente em suas costas:
Tinta preta (que parecia ainda mais escura ressaltada em sua pele pálida), letras grossas e redondas. Três palavras: "tudo vai passar".
Tudo-vai-passar. Me atingiu como um soco.
Talvez ela estivesse suportando aquilo com todas as forças e quem sou eu para julgá-la? Talvez aquela fosse sua cruz. E eu? Posso ser a garota triste do trem amanhã. Será que eu, justamente eu, que pensei mil coisas a respeito da garota, suportaria? Percebi que diferente de mim, a garota de pele branca e cabelos negros tinha a convicção de que toda a dor passaria e logo logo estaria bem.
Envergonhada, abaixei a cabeça e entrei no outro vagão, onde percebi que uma moça com olhos espertos me olhava evidentemente com pena da minha perturbação. Eu não teria uma tatuagem para fazê-la perceber mas talvez um dia, ela também aprenda: cada um suporta - ou não - como pode.
As portas se fecharam.

Eu sou vazia.
Isso me enche.
Ninguém compreende
Minha escuridão.

"Eu sou vazia"
- digo em vão.
Ninguém conhece
Meu coração.

Eu sou sozinha.
Como explicar?
Ninguém acompanha
O meu andar.

Sozinha e só:
Essa sou eu.
Levando a vida
Que a vida me deu.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Se for assim, eu não quero.

Eu poderia começar garantindo uma bela história, mas seria mentira. Poderia também dizer que sou dotada de grande criatividade, mas também seria mentira. Criatividade tem a ver com otimismo e otimismo, definitivamente, não tem nada a ver comigo.
Pois bem. As coisas não são como sonhamos. Não existe príncipe encantado, muito menos pote de ouro no fim do arco-íris. Aliás, arco-íris? Se você teve a sorte de ver um algum dia, vai lembrar também que ele desaparece muito rápido, antes mesmo de você PENSAR onde ficava o início dele. A vida é assim.
As coisas nunca dão certo e esse papo de que "no fim tudo se resolve" é furado. No fim, você sofre por estar acabando, não aceita e fica frustrado se perguntando o que fez de errado; querendo voltar ao começo ou ao meio, ou àquela época em que você "era feliz e não sabia".
Desde criança você ouve que deve vencer e ser alguém na vida. Mas quem disse que o soldado aqui quer ir à guerra? Quem me entitulou um combatente? Ninguém pediu minha opinião.
E se eu não quiser vencer? E se eu quiser viver em paz? Quem começou esse maldito conflito afinal? Eu não. E se eu não quiser fazer parte disso? É. E se eu não quiser? Não quero.
O show não pode parar então comece a dançar. Mostre para eles. Desista da sua vida, querido, porque seus valores e ideais pouco importam.
Use muito brilho e ligue os holofotes. Beleza e alienação, é isso que o mundo pede. Então que assim seja.
Repito: desista. Da sua vida, dos seus sonhos e objetivos. Aprenda a ser obscuro e a jogar sujo. É assim que se chega longe. Todos terão orgulho de você, mesmo que se sinta infeliz. Afinal, a infelicidade é a parte essencial do sucesso.
Sabe a luz no fim do túnel? Você não precisa dela. As sombras são mais atraentes, mais convenientes e estará cansado demais para pensar nisso.
As aparências não enganam. Tudo é exatamente como parece ser. Assim, tão fútil e superficial. É assim que tem que ser. É assim que se vence a batalha. É desse jeito que se deve desistir.
Não se preocupe, você acostuma. Acaba esquecendo de quem era, de quem te ajudou e o que realmente importa perde a importância. O passado passa e você avança em direção ao nada.
A vida é sua e apesar de não ser por conta da morte, você tem sim o direito de desistir dela: siga esse caminho.
Ignore seus valores, seja corrupto, desfaça dos seus amigos (vínculos só atrapalham), finja e torne-se inabalável.
A realidade é feia. Esse mundo é plástico. Boa sorte nesse teu caminho. Se for assim, eu não quero.

(2010)